meta name="robots" content="noindex" /> Contraculturalmente: LITERATURA DE CULTO 24: O PRINCIPEZINHO



LITERATURA DE CULTO 24: O PRINCIPEZINHO

Li O Principezinho pela primeira vez tinha eu 8 anos. Achei a história divertida, mas não lhe prestei muita atenção. Na altura gostava mais do Tio Patinhas do que de livros com muitas letras. Voltei a ler O Principezinho aos 16 anos, e fiquei aprisionado pela mensagem do livro. Passei a comprar O Principezinho compulsivamente, de tal forma que a senhora da livraria da minha terra já sabia ao que vinha quando entrava pela porta a dentro com uma nota de 5 contos ganhos merecidamente pelos meus serviços como servente de pedreiro, o meu primeiro emprego num belíssimo historial de exploração patronal. Ofereci O Principezinho a toda a gente que conhecia: Aos meus pais, ao meu irmão, aos meus amigos, às minhas namoradas, ao cão da vizinha. Cheguei a traduzir passagens do livro para Inglês (estupidez minha, já que este livro é o segundo mais traduzido no mundo, atrás da Bíblia) em cartas dirigidas a uma Belga que acabou por se tornar "só amiga". E no entanto, nunca possuí uma cópia daquele que é o meu livro favorito de sempre. Até que anos depois, já a febre d'O Principezinho passada e a mensagem esquecida, a minha mãe resolve oferecer-mo. "Deste este livro a tanta gente, é justo que o tenhas também", disse-me ela. Este post é escrito com a Dona Elisete Baratizo no pensamento. Obrigado, mãe!

O autor, Antoine de Saint-Exupéry, foi um famoso aviador Francês. Numa das suas aventuras aéreas, Saint-Exupéry, juntamente com o seu co-piloto André Prévot, despenham-se no deserto do Sahara, quando tentavam fazer a travessia entre Paris e Saigão. Tendo como única fonte de alimentação um cacho de uvas, uma laranja e uma garrafa de vinho, a dupla rapidamente entrou em desidratação, passando quatro dias ao sol alucinando com miragens, até serem salvos por um beduíno. Esta experiência inspirou Antoine de Saint-Exupéry a escrever aquele que se tornaria o seu livro mais afamado, o livro Francês mais vendido de sempre.



O livro começa com o próprio autor perdido no deserto após despenhar o seu avião, quando é encontrado por um pequeno príncipe vindo de um asteróide longínquo, que lhe pede que desenhe uma ovelha. O príncipe passara a vida no seu pequeno planeta, tratando de três vulcões e da sua rosa. Às tantas, resolve partir para conhecer o Universo. Encontra vários asteróides semelhantes ao seu, mas com habitantes muito distintos, como o do bêdado que bebe por ter vergonha de beber e o do geógrafo que passa todo o seu tempo criando mapas sem nunca se ausentar para explorar sequer o seu próprio planeta. Finalmente, o Principezinho chega à Terra, descobrindo que a sua rosa não é única no Universo, como assumira previamente.

Disfarçado de livro para crianças, O Principezinho é na verdade um livro sobre o comportamento humano e as pequenas coisas da vida que vão ficando esquecidas à medida que vamos crescendo. Os adultos com os seus hábitos repetitivos, ridículos e tristes, estão apenas a agir como adultos, enquanto as crianças têm todo o direito de brincar e fantasiar pois um dia também elas se tornarão adultas enfadonhas. O Principezinho, na sua essencência, é um menino puro, simples, amigo de todos, devotado à sua rosa. O Principezinho, o livro, é um clássico intemporal que nos faz olhar para as coisas mais mundanas como se nunca as tivéssemos visto antes. Se nunca o leram, leiam-no. Se já o leram, releiam-no hoje. Deixo-vos com um excerto de um dos momentos mais fortes deste livro:

- Bom dia, disse a raposa.
- Bom dia, respondeu polidamente o principezinho, que se voltou, mas não viu nada.
- Eu estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira...
- Quem és tu? Perguntou o principezinho. Tu és bem bonita...
- Sou uma raposa, disse a raposa.
- Vem brincar comigo, propôs o principezinho. Estou tão triste...
- Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. Não me cativaram ainda.
- Ah! Desculpa, disse o principezinho.
- Que quer dizer "cativar"?
- É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa "criar laços..."
- Criar laços?
- Exactamente, disse a raposa. Tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo... Se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra. O teu me chamará para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo...
A raposa calou-se e considerou por muito tempo o príncipe:
- Por favor... Cativa-me! Disse ela.
- Bem quisera, disse o principezinho, mas eu não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.
- A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não têm mais tempo de conhecer alguma coisa. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me!
- Que é preciso fazer? Perguntou o principezinho.
- É preciso ser paciente, respondeu a raposa. Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás mais perto...

(...)

Assim o principezinho cativou a raposa. Mas, quando chegou a hora da partida, a raposa disse:
- Ai! – Exclamou a raposa – Ai que me vou pôr a chorar...
- A culpa é tua, disse o principezinho. Eu não te queria fazer mal; mas tu quiseste que eu te cativasse...
- Pois quis.
- Mas agora vais-te pôr a chorar!
- Pois vou
- Então não ganhaste nada com isso!
- Ai isso é que ganhei! Disse a raposa. Por causa da cor do trigo… Anda, vai ver outra vez as rosas. Vais perceber que a tua é única no mundo. Quando vieres ter comigo, dou-te um presente de despedida: conto-te um segredo.

(...)

- Adeus...
- Adeus, disse a raposa. Vou-te contar o tal segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos...
O essencial é invisível para os olhos – repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.
- Foi o tempo que tu perdeste com a tua rosa que tornou a tua rosa tão importante.
- Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa... Repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.
- Os homens já se esqueceram desta verdade, disse a raposa. Mas tu não te deves esquecer dela. Ficas responsável para todo o sempre por aquilo que cativas. Tu és responsável pela tua rosa...

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maio 22, 2007
Blogger Hugo relatou...

Eu acho O Principezinho um livro muito especial. Excelente post!    



maio 23, 2007
Blogger Papo-seco relatou...

O primeiro “Principezinho” que li foi em francês

Depois reli-o várias vezes em Português

Duas delas foram leituras para os meus filhos

Quando chegou a idade de eles lerem dei-lhes um exemplar e a recomendação que o transmitissem aos filhos deles

Acredito que o venham a fazer

Parabéns pelo teu texto de “enquadramento”    



maio 25, 2007
Blogger antónio relatou...

Também o devo ter lido pela primeira vez com uns 8 anos. Foi prenda de uma amiga da minha irmã para a minha irmã. Já gostei da primeira vez que o li, mas nada que se possa comparar com a 2ª, a 3ª, a 4ª... Não sei quantas vezes o li já. É sem dúvida o livro que mais vezes li, porque gosto dele e porque é extraordinariamente pequeno. E gostei do teu post. Gosto sempre quando falam bem do Principezinho.    



junho 05, 2007
Blogger Carca relatou...

Vocês 3 são grandes! Obrigado por continuarem a passar por aqui!    



dezembro 03, 2008
Anonymous nádia relatou...

Também adoro esse livro.... gostei do seu enquadramento ao mesmo.

Acho que toda a gente o devia ler e refletir nas inúmeras mensagens que ele conté...

beijinho    



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