meta name="robots" content="noindex" /> Contraculturalmente: Maio 2007



MÚSICA DE CULTO 24: THE POLYPHONIC SPREE

segunda-feira, maio 28, 2007
Mais do que uma banda, os The Polyphonic Spree são antes um cruzamento entre uma comunidade Hippie, um culto religioso e um grupo coral que ficou aprisionado dentro de um Peyote gigante nos anos 70, conseguindo sair para o mundo real apenas para ver nascer o novo Milénio.



Os Polyphonic Spree nasceram da mente de Tim DeLaughter, vocalista, ensaiador e única face visível e identificável do colectivo. DeLaughter havia feito parte dos Tripping Daisy até 1999, altura em que a banda implodiu com o falecimento do seu guitarrista. Em 2000, os membros sobreviventes dos Tripping Daisy foram convidados para abrir um concerto de Granddaddy. Em vez de reabrir feridas antigas, Tim DeLaughter e os seus comparsas dedicaram-se a criar uma nova banda que misturasse Rock Sinfónico com coros. À volta deste conceito juntaram-se 13 músicos, baptizados The Polyphonic Spree. Actualmente, o número de músicos ronda os 20-25, mudando constantemente face a disponibilidade das pessoas envolvidas.

A banda em si consiste num grupo coral com mais de uma dezena de elementos, complementado com guitarra, órgão, bateria, baixo, violino, trompete, theremin, harpa, teclados, trombone, ferrinhos, caixinha chinesa, reco-reco e todo e qualquer instrumento possível e imaginário. Com esta variedade de instrumentos, é de esperar que o seu som seja cheio e pormenorizado, pleno em harmonia, nunca deixando que o ouvinte se deixe levar por sentimentos mais negros, antes pegando-lhe pelos pulsos e soltando-os pelo ar. The Polyphonic Spree são uma celebração de alegria e bondade entre os homens, claramente radiosos numa época em que esses valores caíram em desuso. Lembram-se dos Up With People, nos programas do Júlio Isidro dos anos 80? The Polyphonic Spree faz lembrar a energia desse colectivo, mas com muito melhor gosto musical.

Além da banda sonora para Thumbsuckers (que teria sido composta por Elliott Smith, se o mesmo ainda fosse vivo), os Spree possuem 2 albuns de originais, com mais um na calha. Enquanto não é editado The Fragile Army (previsto para 19 de Junho), podem ir-se ambientando com os dois discos da banda, The Beggining Stages Of..., de 2002:



E Together We're Heavy, de 2004:



Ambos os discos são bastante coesos, ficando Together We're Heavy a ganhar por possuir uma produção mais cuidada e um som mais cheio. No entanto, em The Beggining Stages of... encontra-se aquela que é simplesmente a melhor música dos The Polyphonic Spree, o maior levantador de moral que tive de oportunidade de ouvir nos tempos mais recentes, uma pequena injecção de felicidade perigosamente extrema que na contracapa do cd se denomina como Section 9 (Light & Day/Reach for the Sun). A título de curiosidade, todas as músicas encontradas na discografia oficial dos Spree são baptizadas de Sections, como se cada secção formasse um todo, o que reforça ainda mais a ideia de coesão e continuidade. Por exemplo, o primeiro album termina com a Section 10 (A Long Day), enquanto o segundo arranca com a Section 11 (A Long Day Continues/We Sound Amazed).


Para os interessados em saber em que universo se move a música dos The Polyphonic Spree, o tempo investido em www.questfortherest.com é bem gasto. Este site consiste num jogo (estilo aventura gráfica) no qual Tim DeLaughter tem de encontrar a sua restante trupe. Este jogo (que se termina rapidamente, com muita pena minha) foi criado para promover Together We're Heavy, sendo que a banda sonora e o imaginário icónico está a cargo da banda.


Video: Light & Day


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BD DE CULTO 24: THE WALKING DEAD

domingo, maio 27, 2007
Rick Grimes é um polícia de província, casado e com um filho. Vivendo uma vida calma e recatada, Grimes é alvejado por um criminoso no único dia em que teve de disparar um tiro contra alguém. Algumas semanas mais tarde, Grimes acorda no hospital. Ao seu redor não existem outros pacientes. Não há enfermeiras nem médicos nos corredores. As crianças não brincam na rua. A sua família desaparecera. A casa do seu vizinho está ocupada por duas pessoas estranhas empunhando caçadeiras. E, por todo o lado, o cheiro a putrefacção emana. Rick Grimes perdera tudo na vida menos a própria vida, que está prestes a ser roubada por uma horda de mortos-vivos. Começa assim a melhor série de banda desenhada relacionada com zombies de sempre, The Walking Dead.



O autor é Robert Kirkman, grande fã de filmes de zombies, especialmente dos realizados pelo grande George A. Romero. Kirkman pega no universo zombie criado por Romero e expande-o, levando a que esta série seja uma homenagem a filmes como Night of the Living Dead e Dawn of the Dead (já aqui analisado há quase dois anos atrás), mas podendo também ser encarada como um relato de acontecimentos paralelos no mesmo enquadramento destes filmes. Kirkman, frustrado com o carácter definitivo dos finais da maioria dos filmes de zombies, criou The Walking Dead como um relato alargado do Apocalipse, no qual as suas personagens têm tempo para crescer e mover-se dentro do possível, sem a pressão dos créditos finais. Kirkman demonstrou interesse em que The Walking Dead durasse para sempre, mas como tudo acaba um dia, contenta-se por esticar a série até ao limite do aceitável. Por enquanto a qualidade da mesma está neste momento ao mesmo nível do seu início: Altíssima. O argumento é rico em voltas e reviravoltas, e a arte, a preto e branco, reduz algum impacto visual mais grotesco dando profundidade às personagens. Tal como uma novela, em The Walking Dead existe um equilíbrio de um acontecimento bom por cada 15 acontecimentos maus, que levam o leitor a pensar que mais poderá acontecer aquele bando de desgraçados.




Apesar de este ser um livro de zombies, o ponto fulcral de The Walking Dead não são os mortos. A atenção da série está quase exclusivamente virada para os vivos, com especial ênfase para as suas reacções face à catástrofe com que se viram obrigados a lidar e as suas estratégias de sobrevivência. É claro que por aqui se encontram sangue, tripas e corpos em decomposição, mas o mais importante da série é mesmo a evolução de cada personagem quando confrontados com a falta de comida e combustível, a neve do inverno, a procura de um local seguro para poderem viver, a gravidez, o nascimento e a perda de entres queridos. São os diferentes traços de personalidade que separam as pessoas dos mortos-vivos. Há de tudo, desde o polícia bom ao polícia mau, o casal americano xenófobo, o senhor de idade com as suas "sobrinhas", adolescentes suicidas, campónios que guardam zombies no celeiro enquanto a cura para a sua condição clínica não chega, assassinos... Pessoas boas, pessoas más, pessoas que fazem falta quando são devoradas num mundo onde claramente são uma espécie em vias de extinção.


Editado pela Image, The Walking Dead continua a sair regularmente para o mercado. Os TPB 1 até ao 6 estão disponíveis nas lojas de banda desenhada importada (os meus vieram da Ghoul Gear), e seguramente, mais ainda estarão a caminho. Leiam-nos com cautela e em doses pequenas se forem capazes: The Walking Dead é demasiado viciante para a saúde das nossas carteiras.

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LITERATURA DE CULTO 24: O PRINCIPEZINHO

terça-feira, maio 22, 2007
Li O Principezinho pela primeira vez tinha eu 8 anos. Achei a história divertida, mas não lhe prestei muita atenção. Na altura gostava mais do Tio Patinhas do que de livros com muitas letras. Voltei a ler O Principezinho aos 16 anos, e fiquei aprisionado pela mensagem do livro. Passei a comprar O Principezinho compulsivamente, de tal forma que a senhora da livraria da minha terra já sabia ao que vinha quando entrava pela porta a dentro com uma nota de 5 contos ganhos merecidamente pelos meus serviços como servente de pedreiro, o meu primeiro emprego num belíssimo historial de exploração patronal. Ofereci O Principezinho a toda a gente que conhecia: Aos meus pais, ao meu irmão, aos meus amigos, às minhas namoradas, ao cão da vizinha. Cheguei a traduzir passagens do livro para Inglês (estupidez minha, já que este livro é o segundo mais traduzido no mundo, atrás da Bíblia) em cartas dirigidas a uma Belga que acabou por se tornar "só amiga". E no entanto, nunca possuí uma cópia daquele que é o meu livro favorito de sempre. Até que anos depois, já a febre d'O Principezinho passada e a mensagem esquecida, a minha mãe resolve oferecer-mo. "Deste este livro a tanta gente, é justo que o tenhas também", disse-me ela. Este post é escrito com a Dona Elisete Baratizo no pensamento. Obrigado, mãe!

O autor, Antoine de Saint-Exupéry, foi um famoso aviador Francês. Numa das suas aventuras aéreas, Saint-Exupéry, juntamente com o seu co-piloto André Prévot, despenham-se no deserto do Sahara, quando tentavam fazer a travessia entre Paris e Saigão. Tendo como única fonte de alimentação um cacho de uvas, uma laranja e uma garrafa de vinho, a dupla rapidamente entrou em desidratação, passando quatro dias ao sol alucinando com miragens, até serem salvos por um beduíno. Esta experiência inspirou Antoine de Saint-Exupéry a escrever aquele que se tornaria o seu livro mais afamado, o livro Francês mais vendido de sempre.



O livro começa com o próprio autor perdido no deserto após despenhar o seu avião, quando é encontrado por um pequeno príncipe vindo de um asteróide longínquo, que lhe pede que desenhe uma ovelha. O príncipe passara a vida no seu pequeno planeta, tratando de três vulcões e da sua rosa. Às tantas, resolve partir para conhecer o Universo. Encontra vários asteróides semelhantes ao seu, mas com habitantes muito distintos, como o do bêdado que bebe por ter vergonha de beber e o do geógrafo que passa todo o seu tempo criando mapas sem nunca se ausentar para explorar sequer o seu próprio planeta. Finalmente, o Principezinho chega à Terra, descobrindo que a sua rosa não é única no Universo, como assumira previamente.

Disfarçado de livro para crianças, O Principezinho é na verdade um livro sobre o comportamento humano e as pequenas coisas da vida que vão ficando esquecidas à medida que vamos crescendo. Os adultos com os seus hábitos repetitivos, ridículos e tristes, estão apenas a agir como adultos, enquanto as crianças têm todo o direito de brincar e fantasiar pois um dia também elas se tornarão adultas enfadonhas. O Principezinho, na sua essencência, é um menino puro, simples, amigo de todos, devotado à sua rosa. O Principezinho, o livro, é um clássico intemporal que nos faz olhar para as coisas mais mundanas como se nunca as tivéssemos visto antes. Se nunca o leram, leiam-no. Se já o leram, releiam-no hoje. Deixo-vos com um excerto de um dos momentos mais fortes deste livro:

- Bom dia, disse a raposa.
- Bom dia, respondeu polidamente o principezinho, que se voltou, mas não viu nada.
- Eu estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira...
- Quem és tu? Perguntou o principezinho. Tu és bem bonita...
- Sou uma raposa, disse a raposa.
- Vem brincar comigo, propôs o principezinho. Estou tão triste...
- Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. Não me cativaram ainda.
- Ah! Desculpa, disse o principezinho.
- Que quer dizer "cativar"?
- É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa "criar laços..."
- Criar laços?
- Exactamente, disse a raposa. Tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo... Se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra. O teu me chamará para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo...
A raposa calou-se e considerou por muito tempo o príncipe:
- Por favor... Cativa-me! Disse ela.
- Bem quisera, disse o principezinho, mas eu não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.
- A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não têm mais tempo de conhecer alguma coisa. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me!
- Que é preciso fazer? Perguntou o principezinho.
- É preciso ser paciente, respondeu a raposa. Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás mais perto...

(...)

Assim o principezinho cativou a raposa. Mas, quando chegou a hora da partida, a raposa disse:
- Ai! – Exclamou a raposa – Ai que me vou pôr a chorar...
- A culpa é tua, disse o principezinho. Eu não te queria fazer mal; mas tu quiseste que eu te cativasse...
- Pois quis.
- Mas agora vais-te pôr a chorar!
- Pois vou
- Então não ganhaste nada com isso!
- Ai isso é que ganhei! Disse a raposa. Por causa da cor do trigo… Anda, vai ver outra vez as rosas. Vais perceber que a tua é única no mundo. Quando vieres ter comigo, dou-te um presente de despedida: conto-te um segredo.

(...)

- Adeus...
- Adeus, disse a raposa. Vou-te contar o tal segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos...
O essencial é invisível para os olhos – repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.
- Foi o tempo que tu perdeste com a tua rosa que tornou a tua rosa tão importante.
- Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa... Repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.
- Os homens já se esqueceram desta verdade, disse a raposa. Mas tu não te deves esquecer dela. Ficas responsável para todo o sempre por aquilo que cativas. Tu és responsável pela tua rosa...

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OUTROS CULTOS 23: BORSCHT

quinta-feira, maio 10, 2007
Há uns longos e saudosos meses atrás, mais propriamente em Dezembro de 2006, o shôr psiquiatra aconselhou-me vivamente a tirar umas férias para descontrair longe de tudo e de todos. Como animal social que sou, convenci um velho amigo a vir passear comigo por aí, na sua Volkswagen modelo "Mil Novecentos e Oitenta e Poucos". Esse meu amigo convidou por sua vez uma amiga dele, que por força das circunstâncias acabou por se tornar minha amiga também. A amizade é uma doença contagiosa que se apanha uns dos outros.

As férias foram passadas no litoral Alentejano. Desses dias, recordo o frio que passámos, as conversas longas e interessantes, a vodka pura com duas pedras de gelo e uma rodela de limão, as cervejas com torresmos e aquela que ficou apelidada de Sopa de Bife com Natas, conhecida além fronteiras como Borscht.

O Borscht é um prato nascido na Ucrânia, e tradicionalmente associado aos países do Leste da Europa. Baseado fortemente na beterraba (que garante à sopa a sua característica cor-de-rosinha e um forte sabor a terra), um bom Borscht é o equivalente Kosovar à nacional sopa da pedra, pois à beterraba podem ser adicionados praticamente todos os ingredientes existentes. A receita altera-se de país para país, consoante a abundância de leguminosas e gosto gastronómico de cada nação. A título de exemplo, em Hong-Kong a beterraba é substituída por tomate, e na Polónia existe ainda uma variante de Borscht à base de farinha de centeio. Nos Estados Unidos (como não poderia deixar de ser), pode-se encontrar nos supermercados Borscht para Microondas.

Oficialmente, a variante Portuguesa desta sopa não existe. Atento a este grave problema, contactei a minha amiga de road-trip (Olá Sara!) para me escrever a receita daquela sopa que nos acarinhou o estômago e a alma. As restantes linhas são da sua responsabilidade:

Borscht à Portuguesa

- Para 3 pessoas (Sara, Jay e Carca) no meio do nada numa caravana com as condições mínimas de sobrevivência

Ingredientes:

- 1 frango pequeno
- 2 batatas
- 1 cenoura grande (ou 2 pequenas)
- 1 beterraba grande
- sal
- 1 pacote de natas
- 1 cebola pequena
- Azeite

Falar com o frango já depenado e dizer-lhe que ele vai servir para canja. Cozê-lo com sal em água suficiente para dar para 3 pratos de sopa para cada um dos esfomeados.

Descascar as batatas e cenoura aos quadraditos (nota: podem ser outros legumes….mas estes foram os que se arranjaram… com cogumelos também é fixe)

Assim que o frango estiver cozido, retirá-lo da panela e nessa água cozem-se os legumes.

O Jay desfia o frango e vai deixando uns perdigotos enquanto sopra para que seja tudo mais rápido porque estamos cheios de fome. A Sara vai descascando a beterraba e o Carca está no meio dos sacos-cama à procura de um ralador…

BABRUSNY….encontrado…

Faz-se um refogado e coloca-se a fritar a beterraba já raladinha… mexe-se até ficar naquele ponto que só nós é que sabemos..ai a fome!!!!

Juntam-se as natas à beterraba ainda ao lume e começamos a ver um espesso creme cor-de-rosa muito bem mexido porque a isto tudo se juntou muito amor e carinho.

Já com os legumes cozidos, à beterraba feita em creme junta-se tudo na panela e deixa-se estar a apurar, enquanto vamos provando de sal…

E já está!

Bom apetite!



Nota: E depois de se comer a sopa de Bife com Natas, os matchis ficam a beber cerveja enquanto a cozinheira lava a loiça e limpa a carrinha!

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FILME DE CULTO 23: MANOS, THE HANDS OF FATE

sexta-feira, maio 04, 2007
Quando um filme realmente muito mau aparece no cinema ou no circuito de DVD, muitos são os que lhe atribuem rapidamente a honra dúbia de pior filme na história da humanidade. Um claro exagero, pois, ignorando toda a subjectividade da questão, um filme nunca consegue ser tão mau que não haja outro pior para comparar. No entanto, esta questão tira-me o sono e arrasta-me numa espiral descendente de mau gosto e sofrimento, sempre tentando visionar aquele que será o pior filme, não de todo o sempre, mas de toda a minha vida. E perco realmente muitas horas a ver lixo, a procurar beleza em toda a série-B propositadamente má e em todo o embuste Hollywoodesco armado em bom. E peno nesta demanda pelo meu santo Graal. Mas sinto que estou prestes a encontrá-lo. Isto porque nunca vi nada tão horrivelmente e insultuosamente mau como Manos, the Hands of Fate, e não sei se depois desta experiência traumatizante, terei coragem para procurar alguma película que ultrapasse esta bosta inglória.



Devo confessar que já sabia naquilo que me estava a meter. Já adivinhava que este seria daqueles filmes que me iriam custar a ver até ao fim. Mas a curiosidade levou a melhor, claro. Caramba, se o próprio Quentin Tarantino possui uma cópia de Manos, the Hands of Fate em celulóide, o filme não pode ser tão mau quanto isso, certo?

Errado. Completamente errado! Este filme tem tantas falhas que nem sei por onde começar. Talvez pela figura de Hal Warren. O Texano Warren foi um vendedor de fertilizantes agrícolas durante toda a sua vida. Porém, Warren sonhava que a sua vida podia ser mais do que estrume e pesticidas. Warren queria ser uma estrela, um herói, alguém que as pessoas não ligadas à agricultura admirassem, desejassem, acarinhassem! Warren queria ser realizador de cinema! E apostou com um amigo que assim aconteceria, girava a terra no ano de 1966.

Prontamente, Warren concebeu o enredo. Uma família, pai, mãe, filha e cão, viajam sem destino pela América profunda (leia-se Texas). Depois de longas horas de viagem, acabam perdidos no deserto, vendo-se obrigados a pernoitar numa estalagem guardada pelo deformado Torgo, que passará a totalidade do filme a tremer, gemer maleficamente e repetir até à exaustão "The master would not aprove".

Torgo = Brad Pitt

O Mestre de Torgo viria a revelar-se ser uma criatura demoníaca, vestida de robe com umas grandes mãos vermelhas pintadas e um malvado bigode à Mariachi. O Mestre dormiria longas sonecas, guardado pelo seu harém de esposas defuntas. Com a chegada da família aos seus domínios as esposas discutem sobre o seu destino. Uma das esposas, supostamente a favorita do Mestre, manifesta-se claramente contra o assassínio da criança mais nova. Entretanto, Torgo tenta seduzir a matriarca da família. O Mestre acorda do seu sono de beleza e encontra o seu séquito envolvido numa terrível luta (na verdade, as esposas limitam-se a rebolar umas por cima das outras), e toma uma decisão: O pai e o cão têm os dias contados, a mãe e a filha serão suas mulheres. Não importa que a filha não tenha mais de 8 anos, o Mestre ama todas as mulheres (é o próprio que assim o afirma). O Mestre encarrega-se também de castigar a sua esposa preferida e o próprio Torgo pela sua desobediência, numa das cenas mais intensas do filme, em que o patrão e o subordinado se enfrentam violentamente (com toda a violência que o acto de fitar intensamente alguém sem piscar os olhos acarreta, claro).


Lairai, lararai lalarairai... Y viva España!


Pelo meio do filme haveriam também vários planos de um casal de adolescentes dentro de um carro na marmelada, sem nada de válido para acrescentar ao enredo. Só porque sim.


Rapaz: Cá estamos...
Rapariga: É a vida...
Rapaz: O que estamos aqui a fazer neste filme?
Rapariga: Ninguém sabe, é um mistério! Agora beija-me e ignora a claquete que ficou esquecida na margem direita deste plano.



Escrito o argumento, faltam os actores. Num golpe de génio, Warren contrata-se a si próprio para o papel de pai de família. Os restantes actores seriam encontrados em companhias de teatro locais e agências de modelos. O seu salário seria pago com as receitas do filme. Warren tornaria milionários todos aqueles jovens actores, tal era a sua confiança em Manos.

O processo de rodagem correria na perfeição. Warren havia adquirido uma câmara de 16mm, sem tripé, e que permitia apenas filmar 30 segundos de cada vez. É impressionante como se conseguem filmar 10 minutos de deserto na cena inicial do filme SEM SE PASSAR RIGOROSAMENTE NADA DE RELEVANTE! Isto porque Warren se esquecera de adicionar aos cactos e areia os créditos iniciais. Apenas um pormenor.

A iluminação de filme seria completamente natural. O que significa alterações de cores de um plano para o outro. E que significa também que as cenas filmadas de noite seriam iluminadas por faróis de automóveis. Faróis esses que atraem traças. Traças essas que passam todas as cenas nocturnas a embater contra os actores e a câmara. Apenas outro pormenor.

Uma câmara de filmar tão espectacular como uma 16mm sem tripé que filme apenas 30 segundos de cada vez teria de vir com um senão: a câmara não captava som. Warren teve de contratar todo um grupo de pessoas (3 ao todo) para dobrar o filme. Em mais um rasgo de genialidade, o próprio realizador resolve dobrar as vozes da maior parte das personagens masculinas do filme, utilizando sempre o mesmo tom de voz monocórdico, o que acabaria por transformar os diálogos em monólogos. Torna-se difícil de perceber quem está a dizer o quê quando estão dois homens em cena. Daí que os diálogos tivessem de ser reduzidos ao mínimo, apostando na repetição de falas para reforçar a ideia. Não resisto a fazer um resumo (alargado) dos diálogos do filme:

Pai: Estamos perdidos no Deserto.

Mãe: Vamos parar ali naquela casa sinistra.

Torgo: Não podem ficar aqui nesta casa sinistra. The Master would not aprove. Bem, afinal podem ficar.

Mãe: Aquele quadro é sinistro.


Van Gogh would not aprove.


Torgo: Não toquem no quadro. The Master would not aprove.

Cão: Béu béu.

Filha: Vou correr atrás do cão e perder-me no deserto a meio da noite.

Torgo: Espera. The Master would not aprove.

Pai: Vou atrás da filha. Olha uma cobra sinistra. Pum pum, pronto, matei a cobra a tiro.

Polícia #1: Vamos investigar a origem daqueles tiros.

Polícia #2: É melhor não nos afastarmos muito do carro. Está escuro como bréu e o carro não tem bateria suficiente para ficar muito tempo com os faróis acesos. Além disso, as traças estão-me a comer a roupa toda.

Torgo: Mulher, eu sei que The Master would not aprove, mas quero que largues o teu marido e fiques comigo para sempre!

Mãe: Larga-me, Torgo. És sinistro!

Esposa Favorita do Mestre: Salvemos a rapariga pequena e matemos os restantes.

Esposa do Mestre #4: Não, matemos toda a família!

Esposa Favorita do Mestre: Não, salvemos a pequena.

Esposa do Mestre #3: Não! Matamos todos e pronto!

Esposa do Mestre #2: Acho que para isto ficar resolvido teremos de rebolar por cima umas das outras.

Mestre: Silêncio, esposas! Eu fico com as duas recém-chegadas. Eu amo todas as mulheres, até as de 8 anos! Tu, esposa favorita, para te castigar pela tua desobediência, irei prender-te a um poste não fazer nada de especial contigo. A ti, Torgo, o teu castigo será ficar a olhar para ti sem pestanejar durante 2 minutos. Para veres como sou mau. Ah, e mais lá para a frente queimo-te uma mão!

Mulher: Ah, sinto-me sinistra!

Marido: Ah, sinto-me sinistro!

Filha: Ah, sinto-me sinistra e também ligeiramente explorada neste filme moralmente ambíguo!

Mestre: LOL (mas um LOL maléfico)!

Pai: Fiquei com o emprego do Torgo, enquanto a minha mulher e filha menor de idade satisfazem os desejos do Mestre. Entrem, forasteiros, mas fiquem sabendo que The Master would not aprove!

FIM


Com o filme concluído e as cenas editadas (vozes dobradas, créditos finais e já está), Manos, the Hands of Fate estreou com pompa e circunstância em El Paso, Texas. O realizador e actores chegaram à estreia de limosine e fato de gala. Com o orçamento cada vez mais apertado, os fatos tiveram de ser alugados e a limosine daria várias voltas ao quarteirão, apanhando o elenco e equipa técnica ao ritmo de 4 pessoas por viagem, para que ninguém envolvido nesta mega-produção chegasse a pé à estreia. O filme começa a rodar, a antecipação cresce. Momentos de silêncio. Seguidos de momentos de indignação. Seguidos por momentos de perplexidade. Seguido por um longo momento de gargalhada geral até ao final da película. A meio da projecção, realizador e actores já haviam saído pela porta dos fundos, cobertos de vergonha e humilhação.

Para aumentar ainda mais o mito em torno de Manos, The Hands of Fate, uma curiosa sucessão de eventos trágicos envolveram grande parte da equipa associada a este épico. O realizador caiu em desgraça e cometeu suicídio (consta que andou permanentemente pedrado durante a rodagem de Manos, o que desculpabiliza em parte a falta de coerência entre cenas, planos e diálogos). Alegadamente, 3 das "actrizes" faleceram também pouco depois da estreia de Mãos, as mãos do destino, prova final e irrefutável de que afinal o arrependimento mata mesmo.

Resumindo: Manos é longo, chato, com diálogos monossilábicos intercalados com grandes planos de caras inexpressivas, mal filmado, mal dobrado, mal editado. Tudo de mau. Inacreditavelmente mau. Não sei se este é o pior filme de todos os tempos, mas nenhum outro alguma vez me conseguiu arrancar tantos "como é possível?" da minha boca e seguramente depois desta experiência prefiro arrancar a planta do pé esquerdo com uma tesoura a ter de voltar a ver isto. Estou satisfeito e finalmente conseguirei dormir descansado! Obrigado, Hal Warren!


Trailer (remake):

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