meta name="robots" content="noindex" /> Contraculturalmente: Março 2007



MÚSICA DE CULTO 22: ARCADE FIRE

sábado, março 17, 2007
É mesmo necessário explicar quem são os Arcade Fire?



Biografia resumidíssima: Arcade Fire é uma banda canadiana (do Quebec), de 7 elementos. Formados em 2003, a banda desde sempre apostou em criar a sua própria sonoridade, incluindo nas suas composições, além da costumeira guitarra/baixo/bateria, dois violinistas, acordeões, xilofones, percussões variadas e tudo o mais. Esta mistura granjeou-lhes o afecto do público e a rendição da indústria discográfica e dos seus pares. David Byrne e David Bowie são fãs assumidos da banda. Funeral, de 2004, foi considerado quase unanimamente como o melhor album daquele ano. Houve quem arriscasse considerá-lo o melhor album da década! O Hype entretanto começou a desaparecer, e heis que somos brindados este ano com o segundo disco de Arcade Fire, intitulado Neon Bible.




Neon Bible, impressões e sensações:


Faixa #1: Black Mirror - Ressaca de uma festa que dura para lá da sua vitalidade. Cansaço, demasiadas horas a beber e poucas a dormir. O corpo arrasta-se, mas ainda tem força para só mais uma música. Explosões de energia sacodem o corpo do transe. Bom início.


Faixa #2: Keep The Car Running - Uma das faixas mais poderosas de Neon Bible. O carro já está em andamento, não abranda, e somos obrigados a arriscar a vida para poder apanhar a boleia. É bom estar vivo!


Faixa #3: Neon Bible - Uma paragem calma para recuperar o fôlego. Curta, e no entanto significativa. Continuamos a viagem ou ficamos aqui à porta do adro?


Faixa #4: Intervention - Órgãos de igreja envolvem-nos, e a música aumenta, num crescendo demoníaco. Vontade de gritar, chorar e rir, tudo ao mesmo tempo. Montanha russa de sentimentos. Experiência religiosa. É isto Arcade Fire! Quem não se deixar levar pela força de Intervention não tem coração.


Faixa #5: Black Wave/Bad Vibrations - A música 2-em-1. Primeira parte, alegria podre. Jean-Michel Jarre actualizado, com mais memória RAM e um disco de 500 gigabytes. Depois, plim plam pum, segunda parte, um baixo anuncia trovoada, e uma nuvem negra invade o leitor de cds. Escura como a peste, arrasta-nos para a faixa seguinte...


Faixa #6: Ocean of Noise - A canção de Neon Bible. O amor no meio do mar. O fim é o início e o início é o fim. Lei da vida. Dançar agarradinho. Mentiras e violência embaladas ao sabor das ondas. A melhor razão pela qual se deve ouvir as músicas de Arcade Fire até ao fim. This time we'll work it out. Bonita.


Faixa #7: The Well And The Lighthouse - Maratona vertical. Sair do fundo do poço só com a força dos punhos. Claustrofobia, necessidade de oxigénio. A luz na boca do poço oscila. Está quase... Ar! Cá fora, os vaga-lumes dançam a valsa dos amores na noite mais escura de sempre. É bom estar vivo, parte 2.


Faixa #8: Antichrist Television Blues - Martelar contra a parede. Ritmo intenso. Troca de braço, que este já dorido. Recomeça. Mais forte, que o prédio tem de ficar pronto amanhã. Aumenta o ritmo. Prende os braços atrás das costas e bate com a cabeça. Grita de dor. Continua. Tem de ser. Don't wanna work in a building downtown. Mas não há outra hipótese. Nervos à flor da pele. Excelente.


Faixa #9: Windowsill - Olhar para fora é sempre mais fácil do que olhar para dentro.


Faixa #10: No Cars Go - Bem reciclada do EP de estreia. Mais forte, mais rápida, mais cuidada e trabalhada. Agora, com a ajuda de coros militares! A cortina de ferro já caíu, mas de ferrugem nem sinal.


Faixa #11: My Body is a Cage - Intensidade. Mais órgãos de igreja, desta feita apontando alto para a transcendência. Set my spirit free...


Veredicto: Neon Bible não é melhor do que o seu antecessor. Mas também não é pior. É simplesmente diferente, e poderá não agradar a todos os que veneraram Arcade Fire anteriormente. Mas agradará a muitos outros que nunca lhes prestaram grande atenção. Neon Bible não desilude quem não se deixa iludir com mais do mesmo, elevando à estratosfera as expectativas para o terceiro album. Estará no final do ano entre os melhores de 2007. Desde 5 de Março que poderia estar nos vossos lares. Deixem-se de downloads ilegais (a tentação é grande, e eu também não fui capaz de resistir) e dirijam-se ao vosso botequim discográfico favorito. Eu assim o farei quando puder...


Video: Neon Bible

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BD DE CULTO 22: LOST GIRLS

sexta-feira, março 16, 2007
Um regresso a Alan Moore, desta feita com um bonito relato sobre amor real e pornografia ilustrada.

Em 1991, Alan Moore iniciou mais um projecto rodeado de controvérsia. Inicialmente aliciado pela revista Taboo, o escritor aliou-se à pintora Melinda Gebbie, com o intuito de criar uma banda desenhada pornográfica. Moore, com era seu hábito, escreveu prontamente o argumento completo. Gebbie não se adaptou a desenhar sobre uma história já completamente definida, preferindo criar à medida que as personagens se desenvolviam, e não pintar sobre o trabalho dos outros. O génio criador de Moore encontrara finalmente quem lhe fizesse frente. Subjugado, não teve outro remédio senão jogar pelas regras de Gebbie. O projecto arrasta-se então por longos e penosos anos de pesquisa sobre histórias infantis e posições sexuais, com aulas práticas à mistura.

15 anos depois, Alan Moore e Melinda Gebbie estavam casados.

16 anos depois, é finalmente editado Lost Girls.



No início da primeira guerra mundial, três mulheres encontram-se por acaso num hotel Austríaco. Dorothy Gale, uma jovem adulta, a trintona Wendy Darling e a idosa Alice Fairchild. Face a monotonia do lugar, as três senhoras iniciam uma troca de relatos aventurosos sobre as suas experiências sexuais prévias. Dorothy conta da sua desvirginação às mãos de três fazendeiros, aquando da passagem de um furacão pelo seu Kansas natal. Wendy relembra as suas aventuras com um pequeno sem-abrigo de seu nome Peter Pan, líder de um gang de inadaptados chamados Lost Boys. Alice, a mais experiente do grupo, seduz as suas companheiras com as suas façanhas bisexuais aos 14 anos, num longínquo país de maravilhas.

Bem para além da perversão (cuidada e completa com referências às obras originais) submetida a estas personagens do imaginário popular, está o trabalho artístico de Lost Girls. Cada relato é ilustrado com um conjunto de paletes de cores e estilo de vinheta diferentes. Os paineis de Alice, bem coloridos, são em forma de espelho oval. Os de Wendy são escuros, altos, reprimidos e vitorianos. Os de Dorothy são amplos e em tons de pastel. A atenção ao detalhe peca apenas por ser algumas vezes demasiado gráfica.

Censurado em diversos países pelo seu conteúdo chocante e provocador, Lost Girls foi no entanto justamente louvado pela crítica especializada. Este esforço conjunto do casal Moore/Gebbie poderá ser mais facilmente encontrado em Portugal do que no próprio Reino Unido, onde a obra foi vetada pelas autoridades responsáveis pela moral e bons costumes. Recorram às encomendas em lojas de banda desenhada de importação, sem problemas de consciência.

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LITERATURA DE CULTO 22: RAMBO, A FÚRIA DO HERÓI II

terça-feira, março 13, 2007
Rambo. John Rambo. O homem. O soldado. A máquina de guerra. O herói de 3 blockbusters (com mais um a caminho). Rambo, o ícone! Rambo, o duro! Rambo, o... livro?



"Quando Rambo deixou as sombras do hangar, com o corpo musculoso em silhueta, devido à luz do Sol, abrindo a extremidade do tubo e preparando-se para praticar, Murdock virou-se para Trautman e abanou a cabeça, duvidoso.

- Coronel, tem a certeza de que ele não está ainda perturbado pela guerra? Aquela piada que ele fez acerca do pára-quedas. E ele está realmente... Eu nem Acredito. Quero dizer, tenho mesmo as minhas dúvidas... Mais interessado num arco e flechas do que num lança-granadas ultra-sofisticado. Não podemos dar-nos ao luxo de envolver alguém que possa desvairar, sob pressão, em território hostil.

- Pressão? - Trautman pareceu ter ficado estupefacto. - Pensei que tinha estudado a ficha dele, que sabia tudo sobre ele. Ele é o melhor soldado de combate que eu já vi. Mesmo em Bragg, durante o treino, era óbvio que ele seria um sucesso. Um génio. Tem um instinto para a luta e, neste momento, um único desejo: ganhar uma guerra que outros o forçaram a perder.

- Coronel, vá lá, o senhor desaponta-me. Espero que não vá voltar àquela velha piada de o Governo segurar os braços dos militares para não poderem ganhar.

- Houve mentiras. E morreram bons homens por causa disso. E outros bons homens estão ainda prisioneiros, por causa disso. E Rambo... Bem, se ganhar agora significar que tem de morrer também, ele morrerá. Sem medo. Sem ressentimentos. Isso, mais do que qualquer outra coisa, torna-o especial. Desvairar, sob pressão? Nem pensar. Porque, Murdock, aquilo a que você escolheu chamar território hostil...

- Sim? Que tem?

- Ele chama-lhe lar."

Ao que parece, David Morrell escreveu há muitos anos atrás um livro, de seu nome First Blood. O livro retratava o regresso de um antigo soldado Norte-Americano da guerra Vietnamita ao seu país de origem, e a sua impossibilidade de se readaptar. O livro, aclamado no ano da sua edição, terminava com a única solução possível para um homem treinado apenas para a guerra e sem qualquer hipótese de fuga numa sociedade em paz: a sua própria morte.

First Blood foi adaptado ao cinema. Sylvester Stallone encarnou a personagem do soldado falhado, John Rambo. James Cameron realizou. O filme foi um sucesso. A personagem principal não morreu no final como devia ter acontecido. Tinha de haver uma sequela. David Morrell, incapaz de parar a máquina de Hollywood, procurou encontrar uma solução alternativa para manter os direitos sobre a sua personagem, entretanto morta-viva tal como um zombie. A sequela do livro (e do filme) dava pelo título Rambo, A Fúria do Herói II.

O problema principal reside essencialmente aí. Rambo havia morrido no livro. Se David Morrell tivesse tido juizo, não tinha vendido os direitos de First Blood para Hollywood. A sequela funciona como um remendo com pouca cola e convicção.

"Depois da sua guerra privada contra o xerife de uma pequena cidade, Rambo está na prisão; quando o coronel trautman, seu ex-comandante, lhe propõe uma missão que para a maioria dos homens seria suicídio, Rambo aceita.

Terá de penetrar na selva do Vietname e encontrar camaradas que ainda lá estão a ser torturados. Não deve trazê-los de volta, mas apenas fotografá-los. Não se pode vingar.

Para Rambo, a primeira missão é difícil. A segunda, impossível..."


Rambo, o livro, é tão esquecível quanto o segundo filme. E então, qual é o intuito de trazer este tema à baila? Simples!

O SACANA DO LIVRO FICA MUITO BEM NA ESTANTE, CARAÇAS!

Verdade. Primeiro, quantos livros do Rambo existem? E quantas pessoas se deram ao trabalho de adquirir um livro do Rambo em Portugal? Segundo, os níveis de comicidade que uma passagem aleatória deste livro atingem quando lidos na casa de banho. Terceiro, qual não é a moçoila que não fica impressionada pela virilidade de um gajo que tem um livro do Rambo na prateleira?

Rambo, A Fúria do Herói II não será um bom livro... Na verdade, nem sei se uma coisa destas possa ser considerada livro. Mas lá que dá um ar másculo à estante e impressiona as babes, lá isso é indiscutível! Veja-se o seguinte diálogo, totalmente verídico (coff, coff) entre a minha pessoa e uma amiga de circunstância:

- "Ai, ai, ai, tantos livros! O menino bem comportadinho gosta tanto de ler, não é?"

- "Sim, mas repara... Tenho o livro do Rambo..."

- "Possui-me já aqui neste chão imundo, minha besta carnuda!"

Ah pois é...

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