meta name="robots" content="noindex" /> Contraculturalmente



BD DE CULTO 22: LOST GIRLS

sexta-feira, março 16, 2007
Um regresso a Alan Moore, desta feita com um bonito relato sobre amor real e pornografia ilustrada.

Em 1991, Alan Moore iniciou mais um projecto rodeado de controvérsia. Inicialmente aliciado pela revista Taboo, o escritor aliou-se à pintora Melinda Gebbie, com o intuito de criar uma banda desenhada pornográfica. Moore, com era seu hábito, escreveu prontamente o argumento completo. Gebbie não se adaptou a desenhar sobre uma história já completamente definida, preferindo criar à medida que as personagens se desenvolviam, e não pintar sobre o trabalho dos outros. O génio criador de Moore encontrara finalmente quem lhe fizesse frente. Subjugado, não teve outro remédio senão jogar pelas regras de Gebbie. O projecto arrasta-se então por longos e penosos anos de pesquisa sobre histórias infantis e posições sexuais, com aulas práticas à mistura.

15 anos depois, Alan Moore e Melinda Gebbie estavam casados.

16 anos depois, é finalmente editado Lost Girls.



No início da primeira guerra mundial, três mulheres encontram-se por acaso num hotel Austríaco. Dorothy Gale, uma jovem adulta, a trintona Wendy Darling e a idosa Alice Fairchild. Face a monotonia do lugar, as três senhoras iniciam uma troca de relatos aventurosos sobre as suas experiências sexuais prévias. Dorothy conta da sua desvirginação às mãos de três fazendeiros, aquando da passagem de um furacão pelo seu Kansas natal. Wendy relembra as suas aventuras com um pequeno sem-abrigo de seu nome Peter Pan, líder de um gang de inadaptados chamados Lost Boys. Alice, a mais experiente do grupo, seduz as suas companheiras com as suas façanhas bisexuais aos 14 anos, num longínquo país de maravilhas.

Bem para além da perversão (cuidada e completa com referências às obras originais) submetida a estas personagens do imaginário popular, está o trabalho artístico de Lost Girls. Cada relato é ilustrado com um conjunto de paletes de cores e estilo de vinheta diferentes. Os paineis de Alice, bem coloridos, são em forma de espelho oval. Os de Wendy são escuros, altos, reprimidos e vitorianos. Os de Dorothy são amplos e em tons de pastel. A atenção ao detalhe peca apenas por ser algumas vezes demasiado gráfica.

Censurado em diversos países pelo seu conteúdo chocante e provocador, Lost Girls foi no entanto justamente louvado pela crítica especializada. Este esforço conjunto do casal Moore/Gebbie poderá ser mais facilmente encontrado em Portugal do que no próprio Reino Unido, onde a obra foi vetada pelas autoridades responsáveis pela moral e bons costumes. Recorram às encomendas em lojas de banda desenhada de importação, sem problemas de consciência.

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BD DE CULTO 19: WATCHMEN

quarta-feira, dezembro 27, 2006
É difícil escrever sobre Alan Moore. Difícil porque é praticamente impossível saber-se por onde se começar, tal a imensidão da sua obra. A sublime revitalização de Swamp Thing e Miracleman, e a criação de Hellblazer, From Hell, V For Vendetta e League of Extraordinary Gentlemen, só para citar as obras que foram adaptadas (sem autorização) ao cinema falam por si. Difícil porque um indivíduo que consegue ser ao mesmo tempo vegetariano, anarquista, mago e adorador do Deus-Serpente Glycon é demasiado fascinante para ser traduzido em metáforas e simbolismos. Difícil por ser genial. Adopte-se a saída mais fácil e deixe-se que a obra fale pelo mestre.



Watchmen, de 1986, é o mais importante trabalho mainstream de Alan Moore. Nos anos 80, a DC havia adquirido os direitos de uma editora obscura de banda desenhada de seu nome Charlton. A editora contacta Moore e Dave Gibbons para dar vida aos heróis dessa defunta companhia, trazendo-os para o universo DC. Moore opta por fazer algo visto na altura como revolucionário: com base nas personagens da Charlton, cria um novo rol de heróis e um universo à parte e, inteligentemente, elabora um livro de banda desenhada com princípio, meio e fim, destruindo qualquer hipótese de sequela ou posterior aproveitamento das personagens e mitologia por parte da DC.




Watchmen é encarado como uma tese sobre o possível impacto da existência de super-heróis no mundo real. No entanto, salvo uma excepção, nenhum destes super-heróis possui poderes especiais, limitando-se a serem pessoas mascaradas. A condição humana destes heróis é amplamente explorada. São os medos, aspirações, desejos, fobias e crenças pessoais que dão profundidade às personagens, não a sua capacidade de combate ao crime. Cada capítulo é relatado por uma personagem diferente, alterando-se a percepção de eventos dependendo do ponto de vista, de forma não linear, plena de simbolismo. Watchmen significa ao mesmo tempo "Relojoeiros" e "Observadores". Tudo neste livro é tão vasto e ao mesmo tempo preciso. Nada acontece por acaso.

Watchmen é um exercício de escrita. Exemplo maior no capítulo 5, em que a primeira página reflecte a última, a segunda reflecte a antepenúltima, e por aí em diante. Por ter criado uma banda desenhada de super-heróis adulta e densa, Alan Moore acumulou variadíssimos prémios, sendo Watchmen a única banda desenhada a ter sido distinguida com o Hugo Award, prémio reservado às melhores obras de ficção científica.

Sendo esta uma BD altamente cinematográfica, e no entanto impossível de ser filmada, a adaptação de Watchmen ao cinema está na calha, devendo estrear em 2007. Moore está mais uma vez contra esta adaptação. Desta vez, os fãs também. Há obras que deveriam ser intocáveis. Enquanto que o universo de Watchmen não fica perpetuamente arruinado por Hollywood, releiam ou descubram a obra, em formato TPB (versão inglesa), nas lojas da especialidade.

Opto por não relevar nada da trama de Watchmen. Não é humanamente possível fazê-lo.

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